como se estivessemos todos dentro de frascos de bolachas diferentes. como se não importasse mais nada senão olhar para fora e tentar entender os movimentos de ombros desconhecidos.
sábado, agosto 31, 2002
"escolhe escolhe escolhe o que queres que se oiça. escolhe escolhe o que queres que se cale. não importa se mais alguém precisa do contrário. escolhe bem. escolhe para ti."
e ninguém, quase ninguém entende que o que preciso é de um sorriso, silêncio e os olhos fechados. fechados a dizer tudo. a segurança da verdade, da verdade genuína que as mãos não rasgam. o corpo todo reluzente em mentiras e o deslocamento de ar na língua. olhar baço. de papel.
o que eu queria eram braços. braços sabes? e cores a voar sem vento. o que eu queria eram linhas ténues. definidas. e o sol a bater-te na cara sem te deixar ver. e o sol sem gritar.
sexta-feira, agosto 30, 2002
sábado, agosto 17, 2002
podes ir tranquilo e deixar os teus olhos na minha mão. prometo que vou fechá-los devagarinho todas as noites.
sexta-feira, agosto 16, 2002
Acho que não é muito. Pedir o teu rosto para o olhar nas linhas brancas da manhã. E vê-lo, vê-lo a escrever-se por si próprio, traço a traço, vírgula a vírgula, na pele frágil do dia.
quinta-feira, agosto 15, 2002
Continuamos sem nos falar. Já sei que és lento a perdoar, que cada situação nova põe-te em parafuso, que tens de fincar bem os pés, com toda a força, respirar fundo e só então me ofereces um dos teus sorrisos tímidos. Sei bem tudo isso. Mas sabes, aqui tudo cheira a fruta. Tudo cheira a fruta, tudo é felpudo e florido. E eu estou bem, até consigo festejar. Mas queria-te aqui comigo. Depois, se quiseres, voltamos a ser dois peixes nas profundezas de um mar denso, aos encontrões aos rochedos até nos cansarmos e cuidarmos das feridas um do outro.
o telefone toca
do lado de lá ouço uma guitarra
vou dormir de olhos abertos no escuro
para te ouvir melhor
sábado, agosto 10, 2002
As flores que vão caindo sobre a minha cama são de todos os géneros e cores. Há dias seguidos que isto acontece. Já não sei onde guardar tanta flor. Nem sei de onde vêem. Fico horas a fio, sentada, em frente à cama à espera que elas caiam para descobrir de onde vêem. Não pode ser do céu, se tenho o tecto a separar-me dele…não entendo. Não durmo há dias. Nos poucos momentos em que fecho os olhos por alguns minutos, porque me sinto muito cansada, elas caem, caem aos montes. Quando abro os olhos fico aterrorizada. Culpo-me por não ter resistido ao cansaço. É terrível. Tanta flor aqui. E hoje só caíram amarelas.
quinta-feira, agosto 08, 2002
não sei qual a sensação de ter uma centopeia a subir-me pelo corpo. imagino que não seja muito diferente do que estou a sentir agora. arrepiante. os olhos da centopeia parecem querer devorar-me mas não consigo gritar. gritar. fugir. nada. mesmo sabendo que vai fazer-me mal. fico estática à espera que ela me pique. se calhar vou preferir a dor do que esta espera angustiante. esperar que ela suba até ao meu pescoço com aqueles olhos malignos. prefiro a picada. sim. e quase me sinto ansiosa.
terça-feira, agosto 06, 2002
Aqueles dias em que ficava no semi-escuro a vê-lo dormir, a desejar ser o ar que inspirava, a desejar estar nos seus sonhos. Com vontade de acordá-lo, apenas para conversar. Conversar sobre banalidades. Conversar sobre o frio que estava ou sobre o miar do gato da vizinha. Apenas por já estar com saudades de ouvir a sua voz e as suas gargalhadas.
segunda-feira, agosto 05, 2002
um brando mover de braços ao som de um piano que insiste em perfurar o toráx e atingir o músculo.
e depois?
depois.
não há depois.
sobe até às narinas e asfixia.
Telefonei-te, disse:
«Podes sair agora, a rua parece-me pronta para ti.»
Sorriste. Disseste que sim. Não vieste.
Um hábito de música ou de sonho,
qualquer coisa que faça quase sentir,
qualquer coisa que faça não pensar.
