quinta-feira, maio 30, 2002

Fui-me apercebendo da cortina de ferro em que ele próprio se envolvia. Descobri maneiras de a perfurar, de chegar ao outro lado. De uma forma ingénua, inocente, mesmo infantil. Ia brincando. Uma espécie de negócio. Eu oferecia-lhe os meus brinquedos, aproximava-me pé ante pé, com astúcia, torneando, andando em seu redor, aos pulinhos, cantando-lhe baixinho. Ele devia sorrir por dentro e deixava-me aproximar.
Outras vezes era mais difícil. Além da cortina sólida, haviam nuvens e ventos fortes à sua volta. Era preciso ser firme para não cair. No início era apanhada de surpresa. Ia a correr e batia violentamente contra o ferro. Doía muito. Ficava atormentada, confusa. E a revolta que sentia levava-me a procurar outros caminhos, normalmente errados, que ainda o enfureciam mais. Tentava escavar buracos para chegar ao outro lado, saltar com a ajuda de trampolins, ou mesmo aviões. Queria atirar-me sem pára-quedas e ainda cair gentilmente nos seus braços. Impossível. A sua racionalidade não o permitia. A minha irracionalidade permitia tudo.

domingo, maio 26, 2002

- Ontem desfilei com gestos secos, desinteressados.

- As flores mortas no vaso da cozinha continuam por lá?

- Claro.

- As lágrimas queimaram-te o rosto.

- Eram ácidas.

- O que queres fazer?

- Faz-me rir até de madrugada.

- E vamos gritar até ficarmos roucos?

- Vamos.

terça-feira, maio 07, 2002

« Não gosto das pessoas que não gostam de animais. Gosto dos focinhos húmidos dos animais e daquela forma de olhar como se alguém estivesse a olhar através do olhar deles (…)
Gosto da palavra «fascinante». Não gosto de pessoas que não gostam de palavras. Gosto da sedução que se intensifica através das palavras.
Gosto da excitação electrizada que se propaga na noite das cidades. Gosto da noite do mundo(…)
Gosto dos cabelos das mulheres e dos dedos que os percorrem. Gosto de comprar coisas inúteis. Gosto de ouvir os saltos dos sapatos».

Eduardo Prado Coelho

sábado, maio 04, 2002

Gosto quando tens fome. Gosto quando comes com tal sofreguidão, que nem reparas em mim nem ouves o que te digo.

Hoje Revi o filme «Hurlyburly», com o fabuloso Sean Penn, baseado na peça de David Rabe. Pareceu-me um novo filme, vi-o com outra atenção. Defino-o, essencialmente, como neurótico e perturbador, mas divertido. O narcisismo das personagens cativou-me. No final adormeci. Genial.

quinta-feira, maio 02, 2002

- Eu vi-o, mesmo no fim, mas vi-o.
- Como estava ele?
- Mais bonito. Mas o toque estava diferente. Tinha algo de inebriante e horrivel ao mesmo tempo.
- Fugiste?
- Ele cheirava a fruta.
- Mas fugiste?
-Acho que eram framboesas.