Fui-me apercebendo da cortina de ferro em que ele próprio se envolvia. Descobri maneiras de a perfurar, de chegar ao outro lado. De uma forma ingénua, inocente, mesmo infantil. Ia brincando. Uma espécie de negócio. Eu oferecia-lhe os meus brinquedos, aproximava-me pé ante pé, com astúcia, torneando, andando em seu redor, aos pulinhos, cantando-lhe baixinho. Ele devia sorrir por dentro e deixava-me aproximar.
Outras vezes era mais difícil. Além da cortina sólida, haviam nuvens e ventos fortes à sua volta. Era preciso ser firme para não cair. No início era apanhada de surpresa. Ia a correr e batia violentamente contra o ferro. Doía muito. Ficava atormentada, confusa. E a revolta que sentia levava-me a procurar outros caminhos, normalmente errados, que ainda o enfureciam mais. Tentava escavar buracos para chegar ao outro lado, saltar com a ajuda de trampolins, ou mesmo aviões. Queria atirar-me sem pára-quedas e ainda cair gentilmente nos seus braços. Impossível. A sua racionalidade não o permitia. A minha irracionalidade permitia tudo.
