segunda-feira, abril 29, 2002

Aromas e muita inércia.

Gelado com pedacinhos de noz. Aerial M. Um quarto fresco. Pés na parede.

Um acordar pesado, denso. À minha volta tudo envernizado e intocável. O ar está espesso, tão denso como um cachecol de lã apertado contra os meus lábios e as minhas narinas. Estás tão pálido. Mais pareces um fantasma e queres mesmo assustar-me. ....Não tenhas medo.

domingo, abril 21, 2002

Vou lavar as flores que me deste e arrancar-lhes todas as pétalas.
Depois vou comê-las - só as vermelhas - até ficar enjoada ......Depois vou adormecer tranquila.

......Porque me queres a tracejado.

quinta-feira, abril 18, 2002

Esta tarde pareceu-me estranhamente mais longa que as outras. Observei-a a esticar-se pelos pinhais e pelas matas, a pendurar-se nas janelas e nos umbrais das portas. As pessoas que por ela passaram, chegaram a trazê-la, exaustas, à volta do pescoço, pesada, pesada, quente, amarela.

E lembrei-me que me apetece colar estrelinhas brilhantes no tecto. E chorar com os teus olhos.
Essa beleza põe-me doente.

terça-feira, abril 16, 2002

- Houve uma noite em que partiste no meio de uma música envolvente. Eu ouvi a música e as vozes a noite inteira. Eram sons mornos. Um batuque contínuo que parecia não ter fim. As plantas altas não paravam de crescer lá fora com a humidade, e eu tranquei-me no quarto. O ar sufocava. Lembro-me tão bem….

- Mas…não entendo, eu acabei sempre por regressar….Tu é que fugiste.

- Quando voltaste, vinhas envolto em ruídos estranhos e dizias palavras que eu já não percebia. Tentei curar-te, mas era impossível chegar a ti. Havia plantas altas a crescer no teu corpo e a cortarem-te por dentro. Estavas feio, áspero, irreconhecível.. Duvidei da tua existência anterior…..
As plantas multiplicavam-se com toda aquela humidade. Cheguei a ter medo de ti, percebes? Por isso fugi, com medo que essas plantas gigantescas me devorassem…

- E o amor puro, verdadeiro, que dizias e escrevias? Aquele que acaba por tomar o lugar do sangue no corpo?

- Já ninguém me responde. Leva contigo essas plantas monstruosas. Já não sei onde te deixei. Onde estou? Onde?...... Onde ….Onde? Já ninguém me responde.

domingo, abril 14, 2002

Costumava chegar devagar, com passos leves, de bailarina. Sempre de mansinho, a fazer piruetas algures dentro do meu corpo.
Nessa altura estava muito mais tempo comigo. Agora não. Os períodos em que fica são muito mais raros. Podem passar dois anos sem que eu o veja, nem por um minuto sequer. E sei que as ausências se tornarão cada vez maiores.

……Há momentos em que julgo tê-lo esquecido. Não consigo imaginar-lhe o rosto. Olho para o espelho e nem sinais dele nos meus olhos. Tudo tão baço à minha volta.

Sei que às vezes nos cruzamos, mas não nos vemos. E eu quero contar-lhe tanta coisa, quero que ele me sopre de mansinho, quero que me descalce, que me faça tranças no cabelo, que me beije delicadamente os joelhos e se feche dentro dos meus olhos….

sábado, abril 13, 2002

Esta água colorida está a perturbar-me. Junto-lhe um pouco mais de cinzento. Saio. Enquanto caminho pelo longo corredor, até à janela da sala, sinto-me asfixiar. O tecto branco e brilhante está a descer, está a empurrar-me para o chão. Rastejo e consigo chegar à janela. Agora não consigo respirar. O ar da rua está pesado, ácido. Entro e arrasto-me até ao quarto. A água, agora densa e muito cinzenta, quase negra, caiu e espalhou-se pelo chão. Provavelmente foi da corrente de ar.

domingo, abril 07, 2002

Da janela vejo a noite escoar-se. Sinto-a colada aos dedos, à pele.
Tenho a densa magia da noite entranhada no corpo. Tu tens a densa magia da noite entranhada, mesmo de dia, na pele. Cheiras sempre a noite. Mesmo dentro da luz sem segredos do dia. Só de noite é que eu a sinto, a tal magia. Como agora. Em que ela se me cola com força ao peito e me consome devagarinho… E a minha pele contar-te-á pequenos segredos.

sexta-feira, abril 05, 2002

Encontrei uma ostra esta manhã. Ainda bem. Ela sorriu-me e pediu-me que me escondesse dentro dela. É o que vou fazer. Vou ficar segura, envolver-me comigo, serenar esta pulsação.
Voltarei quando me sentir dormente, sóbria e intacta.
Vou sim.
Vou tingir-me de várias cores bonitas. Vou ver gotas minúsculas.
Adeus.

quinta-feira, abril 04, 2002

Espelhos, batons e meias verdades.
A minha voz ganha uma nova temperatura.
Pinto a casa para te esperar. Deito-me no chão. O cheiro da tinta anestesia-me. Quando chegares não saberei quem sou. Irei onde quiseres.


terça-feira, abril 02, 2002

Sentou-se no mármore frio, uma sensação agradável. Ela gostava de mármore, dava-lhe segurança. Lá dentro, o ambiente estava tenso, pesado, e ela estava com vontade de cantar e pular, por isso, achou melhor sair dali. Ao entrar na outra sala, a luz feriu-lhe os olhos, mas também gostou daquela sensação. Naquele dia, tudo lhe parecia agradável, delicado.
Olhou pela janela. Numa cozinha do prédio em frente observou um estranho. Pareceu-lhe estar a cortar algo. Tinha uma t-shirt de um azul muito bonito, ela nunca vira um azul assim. Acendeu mais um cigarro, fumou-o delicadamente enquanto observava aquele estranho. Ele nunca chegou a vê-la, e ainda bem, não saberia como reagir. Ou talvez lhe sorrisse. Não sei. Pareceu-lhe triste. Podia cantar-lhe qualquer coisa ou dançar para ele, mas o estranho nem olhou pela janela.
Minutos depois deixou de vê-lo. Provavelmente foi sentar-se na sala, a comer e ver televisão. Sentia-se capaz de ficar ali horas, só a ver o que aquele estranho fazia naquela cozinha branca.
Ela regressará amanhã, e no dia seguinte. E no outro.