quarta-feira, março 27, 2002

Flores violeta no meu cabelo, olhos pintados de negro, pele com cheiro de baunilha.

Se sempre tivesse vivido com a luz das velas, tudo seria diferente. Tudo seria mais agradável.

quinta-feira, março 21, 2002

Onde andas tu, que conheces as palavras que jamais irei dizer? Que pões pedrinhas nos meus sapatos, para que não me esqueça que estou a caminhar?

terça-feira, março 19, 2002

lembro-me de querer ser cientista.
lembro-me de escrever sobre a primavera.
lembro-me dos fins de tarde na praia e também das conchinhas que coleccionava.
lembro-me de gostar de futebol e de compreender que o meu irmão chorasse quando o seu clube perdia em jogos importantes.
lembro-me que tinha medo do diabo.
lembro-me de ter sido picada por muitas abelhas.
lembro-me do bibe azul e das sestas no infantário.
lembro-me da Ana Faria e dos Queijinhos frescos.
lembro-me de correr para os braços do meu pai de cada vez que ele entrava em casa.
lembro-me de gostar do J. e não ser correspondida.
lembro-me de ir à Gulbenkian, olhar para os quadros abstractos e pensar que até eu faria aquilo.
lembro-me que o Natal era muito diferente.
lembro-me do xarope de morango, das pastilhas gorila e das idas ao dentista.
lembro-me de muitos rostos e cores e dos dias limpos e claros.

domingo, março 17, 2002

Ignorar. Sim, ignorar. Mas porque é que acabo sempre por entrar em discórdias? se já não canto a mesma música? se já deitei fora a letra? e cortei, com os dentes, cada uma das cordas da guitarra, gemendo de dor com a chicotada dos fios, transparentes como eu?…Deixem-me de fora. Ou vejam através de mim. Ou ignorem-me também.

-Posso fazer-te uma pergunta? Mas por favor, responde com sinceridade.
-Claro.
-Achas-me feio?
Engoli em seco. Esperava tudo, menos aquilo. Uma pergunta aparentemente tão simples, com uma suposta resposta também ela simples.
-Claro que não! Mas porque perguntas? Que se passa?
Senti uma tontura amarga. Queria abraçá-lo, cuidar dele, protegê-lo. Naquele momento, desejei mais que tudo nutrir por ele um amor profundo. Uma paixão avassaladora. Só assim conseguiria transmitir-lhe a confiança que ele desesperadamente procurava nos meus olhos. Ele ansiava sentir-se completo. Achei-o o mais lindo dos seres. Senti-me revoltada por não o desejar.

sexta-feira, março 15, 2002

O nada apoderou-se de tudo. Nada se ouve. Nada se vê. Nada se sente.
Gosto da luz do dia de hoje. Abaunilhada. Clara, ligeiramente húmida, embrulhada numa electricidade provocadora.
Cá dentro, de novo a baunilha. A vela que ponho a queimar caminha para uma morte lenta. O cheiro é doce, denso, enjoativo. Apagou-se entretanto. Um fim prevísivel.
E é misto o meu cheiro, e som, e produzo nada, sim, o nada que chega a ser tudo, o que achei em mim, hoje.

quinta-feira, março 14, 2002

Finalmente, por meio da simples persistência, consegui o que queria. A minha persistência, se bem que geralmente funcionasse, não contava como uma verdadeira virtude, já que raramente conseguia baseá-la na paciência. Uma espécie de determinação canina.

terça-feira, março 12, 2002

Há pessoas que expulso intencionalmente. Umas valem a pena acompanhar até à porta, outras nem por isso. Nunca corro com ninguém. Sou uma anfitriã pouco calma, mas educada, incisiva na ordem de despejo.« Muito obrigado por ter visitado a minha vida. Lamento, mas terá de a abandonar agora». Poucos questionam a sua recente condição de sem abrigo, pois nem sequer ficam na rua. A minha era, para estes, apenas uma segunda casa, a dos espelhos, onde se ri e se chora o que lá fora não faz qualquer sentido.

segunda-feira, março 11, 2002

Tique-taque .
O barulho irritante do relógio lembra-me que existe o tempo, que existe a espera.
Tique-taque.
Muitos tique-taques ainda
Entre mim e o que me espera
Muitos dias de ansiedade
E tique-taques.

Ele caminha na minha estrada até chegar a mim.
E só encontra pontos de partida, cruzamentos. Distorções.

Mas ele gosta de estar imerso em mim. Gosta de se afogar e enrolar-se em algas.

Ele precisa fechar os olhos para me ver. E descobre-me melhor do que ninguém.
E gosto de me esquecer nos seus braços. E costuro-me por dentro com os seus suspiros.
E escondo pequenos perfumes nos seus dedos. E os dedos dele são tão bonitos.

segunda-feira, março 04, 2002

Bebes-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu? És uma estátua de pé? A cauda de um cometa?
Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a cálculos? Amas-me demais?
Confesso: não sei se sou amada por ti.
Virás quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então virás vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.

sexta-feira, março 01, 2002

Eu não sou eu, nem sou o outro. Sou qualquer coisa de intermédio.