Fez-me lembrar uma criança bem-educada e furiosa. Tinha o rosto pálido e os olhos brilhantes. Nunca o ouvira falar daquela maneira, mas compreendi de algum modo que era a sua verdadeira voz: clara, calma e vibrante de raiva. Naquele momento tive a impressão de que o seu lado terno e generoso não passara de um disfarce. O seu disfarce mais bem sucedido, um elaborado sistema de gestos afectuosos que ocultava todos os traços do rapazinho frio, enraivecido, que agora me fitava.
quarta-feira, fevereiro 27, 2002
Eu até tento concentrar-me...Tenho acordado bastante bem disposta, com muitas ideias na cabeça... muitas ideias. Não passam de ideias. Até um simples espirro me desconcentra. Será da cafeína? O meu organismo está a tentar comunicar comigo e eu estou ignorá-lo. Não posso fazer isto com ele.
segunda-feira, fevereiro 25, 2002
Quero mergulhar numa piscina com água muito quente, quase a ferver. Quero ficar lá no fundo. Sossegada.
Quero sentir toda a suavidade do mundo nos meus dedos. Quero sentir o quente a invadir todos os poros do meu corpo. E ficar lá no fundo. Passar de cinzenta a azul, de verde a lilás. Quero que o mundo chova na minha piscina e anule todos os meus gestos.
sábado, fevereiro 23, 2002
Nas histórias que ele me contava, quando criança, o que me prendia a atenção a ponto de fascinar-me, não era o enredo, o desfecho, a moralidade, mas sim, a resposta de uma personagem, o mistério de um olhar, a cor de um chapéu...
quinta-feira, fevereiro 21, 2002
terça-feira, fevereiro 19, 2002
segunda-feira, fevereiro 18, 2002
Miguel estava horrorizado, envergonhado consigo mesmo. Tentava responder com monossílabos, mas a força daquela mulher levava-o sempre a tentar desenvolver uma ideia que a surpreendesse, e depois a compor com novos argumentos o falhanço total das primeiras palavras, e depois a gaguejar uma explicação sintética do que verdadeiramente queria dizer – e depois a sentir-se tão mal, tão pequeno perante aquela mulher, tão insignificante no mundo e tão incapaz de dizer o que quer que fosse que acabava por calar-se com um "É assim" ou um "Pronto", estupidamente, ridiculamente.
domingo, fevereiro 17, 2002
Não lavei as mãos pois guardavam os sons do teu corpo
Não lavei o corpo pois tinha os rastos dos teus gestos
Tinha também a inocência do teu olhar que não lavei
Nem aqueles lençóis, não os lavei, nem os espelhos, que nos viram cúmplices.
Lavei sim e perfumei a alma que é tua, só tua
para te esperar como se nunca tivesses ido a lugar nenhum
De onde apaguei todas as ausências que escondi ao
teu olhar.
